mlc entrevista Robert Henke

2014-RobertHenke-LUMIERE-CTM_transmediale-photo_by_ElenaVasilkova_transmediale

foto: ElenaVasilkova_transmediale

 

Ele é programador, músico, engenheiro de ideias e artista de mídias digitais. Robert Henke constrói e opera máquinas que criam sons, formas e estruturas. Vindo do cenário da engenharia, Henke é fascinado pela beleza dos objetos técnicos e desenvolve seus próprios instrumentos e algoritmos como parte integrante de seu processo criativo.
Cada vez mais conhecido do público com o seu nome completo e não como  “co-fundador, Monolake” ou “co-fundador do Ableton”, suas obras são sons e imagens gerados por computadores, gravações de campo, fotografia e luz; transformando, re-arranjando e modulando por regras matemáticas, interações em tempo real e em operações controladas aleatórias. O trabalho do artista tem um foco especial na exploração de espaços, físicos e virtuais. Muitos de seus trabalhos utilizam vários canais de áudio ou são especificamente concebidos para locais exclusivos e suas propriedades espaciais individuais. Como grande parte da obra audiovisual é ao vivo e improvisado de Henke, uma de suas últimas pesquisas/obra é “Lumière”, que explora as percepções de espaço virtual e físico, preenchendo um determinado espaço com padrões de luz, lasers e um som em multi-canal.
Leia na íntegra a entrevista exclusiva do artista para a mlC.  GO LIVE! #livecinemaRobertHenke_by_AndreasGockel_2013
 Roberto Henke / foto: Andreas Gockel

mlC: • Em sua carreira, você trabalhou com diversos meios diferentes, mas a arte sonora parece ser a maior constante nessa trajetória. Você considera-se mais um músico, programador ou artista?

Henke: Tenho mais experiência com a criação musical, mas eu me vejo como um “artista de mídias digitais”, indicando que trabalho com ferramentas de construção própria, e que sou capaz de aplicar certas ideias gerais a vários campos diferentes. Sou um programador decente, mas a programação é uma técnica, não a arte em si, embora ela influencie o resultado final, lógico. Os temas que me interessam são a transformação ao longo do tempo, espaços, repetição e variação, timbre… e todas essas qualidades podem ser exploradas através da música, de instalações e obras visuais. Conforme diversifico os meios que uso, o verdadeiro espírito das minhas obras vai ficando cada vez mais claro.


mlC:
• Você sempre lidou com projetos de grande escala em que o lado técnico é extremamente complexo. Como faz para achar um equilíbrio entre seus papéis como programador e artista?

Henke: É um sério desafio, já que a programação pode ser uma atividade muito gratificante. Ao contrário de questões artísticas, sempre há uma “solução”. Preciso ter muita disciplina, definindo metas e cronogramas claros para garantir que não vou dedicar todo meu tempo à programação. Geralmente, eu separo a criação das ferramentas do processo de criação de resultados artísticos através delas. É difícil aprender a tocar piano enquanto alguém vive reafinando as cordas! Essa afinação precisa ser realizada antes de mais nada. Depois, a gente aceita o que a ferramenta faz e trabalha dentro desses parâmetros.


mlC:
 • Quando ligou materiais visuais a sons pela primeira vez?

Henke: Quando desenhei capas para as minhas fitas cassete, nos meus tempos de adolescente.  Sempre houve essa ligação. No final dos anos 80, construí objetos eletrônicos que geravam sequências de luzes e emitiam pequenos sons. Inspirado pela obra de Peter Vogel, comecei a mexer com vídeo nas minhas apresentações ao vivo. Usei osciloscópios para desenhar formas complexas geradas por sons sintéticos, e por aí em diante. Porém, não vi isso como meu meio de expressão principal, e senti que devia focar na música. Se eu estivesse recomeçando hoje, acho que apresentaria isso mais diretamente ao público desde o início.

Monolake Interrupt / Video de Tarik Barri. Som de R. Henke.


mlC:
 • Como compõe suas apresentações audiovisuais? Começa com o som ou com o aspecto visual?

Henke: Depende. Às vezes, tem um processo técnico que eu estou a fim de explorar. Às vezes, bate uma ideia musical e eu tento incorporar um elemento visual. Em outros casos, é o inverso. Frequentemente, tenho uma ideia visual. Aí, escrevo código para colocar essa ideia à prova, e os resultados me dão novas ideias. Eu refino essas ideias e acrescento uma camada sonora, e esse processo se repete algumas vezes até que eu desista porque a ideia é menos interessante do que eu imaginei, ou até eu sentir que a ideia está suficientemente desenvolvida para servir como parte de uma obra maior, ou como a obra em si.


mlC:
 • Programação pode ser uma jornada sem fim. Como sabe quando é hora de deixar a programação de lado e usar sua máquina?

Henke: Através do Ableton, aprendi que o truque é definir um marco razoável. Softwares nunca ficam prontos. Só posso definir um critério arbitrário como ponto de encerramento. Eu anoto uma lista de coisas que eu quero que o software faça, e caso descubra outras coisas no caminho, anoto-as também, mas faço o possível para me forçar a não me aprofundar nelas. Prazos ajudam muito nesse sentido. Quando sei que preciso entregar uma obra musical em duas semanas, tenho uma noção mais clara de quanto tempo posso dedicar a programação, e de quando tudo precisa estar pronto. O que não ficar pronto até lá simplesmente não será incluído no software. É duro, mas só funciona assim.


mlC:
 • Em 2012, você começou a trabalhar com lasers e desenvolveu a instalação ‘Fragile Territories’. Agora, no caso de Lumiére, sua proposta foi parecida no que diz respeito ao palco. O que mudou em sua abordagem?

Henke: Ainda está mudando muito. Estou desenvolvendo a “Lumiére II”. O foco da instalação anterior era os visitantes, explorando uma única ideia ao longo de um tempo mais longo. O concerto Lumiére pretende apresentar muito mais material em sequência rápida. Isso exige uma forma de atenção diferente do público, e requer um processo de criação muito diferente de minha parte. Planejei Lumiére como uma apresentação audiovisual em tempo real de caráter altamente improvisado. Porém, atingi limites em termos dos tipos de estruturas e gestos que podia moldar com essa abordagem, e isso me levou a reestruturar a obra dramaticamente. “Lumière II” será muito mais complexa, mas com menos interação entre a obra e eu durante a apresentação.


mlC:
 • Tem dicas para pessoas que estão interessadas em entrar no mundo do espetáculo audiovisual?

Henke:Experimente. Arrisque coisas que talvez não deem certo. Erre! Frequentemente, coisas cujo visual ou sons fogem do esperado são mais inspiradoras do que coisas que só funcionam.


mlC:
• E agora? O que você tem feito? (Estamos todos curiosos!)

Henke: Divido meu tempo entre o desenvolvimento de “Lumiére II”, cuja estreia está marcada para fevereiro do ano que vem em Paris, e o tempo em que me divirto no estúdio com novas faixas do Monolake.

 

+ http://roberthenke.com/

 


Lumiére / R.Henke

 

© Live Cinema